É frequente ouvirmos que a ficção científica começa com Júlio Verne, e as suas excelentes obras de ficção. Descobri, recentemente, que é engano meu (e de muitos outros). A ficção científica começa, tanto quanto esteja registado, com Luciano de Samosata e a sua descrição de uma estranha viagem à Lua, em que ocorrem estranhas campanhas contra os habitantes do Sol, no meio dos céus. A ler.
Luciano de Samosata
Publicado Sábado, Dezembro 12, 2009 Literatura Deixar um a ComentárioTags: ficção
Dos Espectros e Goblinóides
Publicado Domingo, Novembro 1, 2009 Citações Relevantes Deixar um a ComentárioTags: humor, marxismo
O Manifesto Comunista de Marx e Engels abre com a sobejamente famosa e celebrada afirmação – “Um espectro assombra a Europa: o espectro do comunismo”.
No entanto, na primeira tradução para Inglês da obra, em 1850, esta abre com a seguinte afirmação – “A frightful hobgoblin stalks throughout Europe”.
Um tesourinho a guardar.
A Ilusão do Mérito
Publicado Quarta-feira, Outubro 21, 2009 Política Deixar um a ComentárioTags: argumento

Mérito vem do latim meritum, merces (recompensa) e pretende identificar o que é atribuível apenas à própria pessoa por uma acção valorizada pela regra social. Não é o valor moral da acção, tenta compreender apenas o que pode ser imputável e usado na proporção comparativa entre os homens. Como a recompensa implica a existência de dois agentes, o que recebe a recompensa e o que a dá, está no discernimento de quem dá a construção desse escalonamento.
O problema é que em linguagem coloquial o termo pretende, mais do que criar a “desigualdade justa”, explicar a justeza da desigualdade. Dá a entender que sabe aquilo que nós temos que interiorizar: um mínimo denominador comum a todas as pessoas que lhes permite afirmar que a Maria acumula 50 pontos de mérito, melhor que o Jorge que pontua apenas 30 e que o Manel que morrerá à fome de demérito.
O escalonador desligará todos os interruptores da desigualdade alegadamente arbitrária, esperando despistar tudo o que não é meritório para encontrar a justa proporção do que dependeu apenas do indivíduo. Não será isto uma miragem?
Se já é complicado sequer sonhar com a possibilidade de inventar uma fórmula que permita calcular quanto é que cada um acrescentou ao produto social, como é que poderíamos inventar outra fórmula que calculasse, desse valor criado, apenas aquele que dependeu da própria pessoa? Inverificável e inexequível.
Nem mérito, nem livre-arbítrio
Numa visão materialista, o ser humano é definido pela sua natureza e pelo seu ambiente. É consequência de tudo antes de ser causa de coisa alguma. Vive perdido na corrente causal, de acordo com as circunstâncias e as grilhetas do destino. Os campeões da “igualdade de oportunidades” mistificam que ele deve apenas aos aspectos de partida os determinantes da sua condição. Nós não escolhemos a classe social, o país, a cidade onde nascemos, não escolhemos a família que temos e o património genético que herdamos. Não continuar a descrição, por medo das conclusões lógicas que somos forçados a inferir, é o que sustenta o discurso das “desigualdades meritórias”.
Pressupondo a existência de leis naturais, que regulam a realidade, encontramos nelas o fundamento para a inexistência de livre-arbítrio, pelo menos no que concerne ao macrocosmos.
No que concerne à escolha humana, e à possível ilusão de que o homem se encontra acima da Natureza, não passa disso – uma ilusão não fundamentada. Os processos neurobiológicos subjacentes à acção humana são, tal como tudo o resto, parte de um sistema que se encontra determinado desde o seu primeiro momento. Estas são as amarras impostas como parte subjacente da nossa natureza humana. A possibilidade de escolha entre o pudim flan e a mousse de chocolate no restaurante é, nestes termos, a mera ilusão da escolha.
Qual é o princípio primeiro da realidade? Esta é uma tarefa que tem a sua génese nas considerações filosóficas dos pensadores gregos, e que foi legada, em parte, à ciência. A teoria cosmológica correntemente mais aceite é a possibilidade do Big Bang, uma forma de Argumento Cosmológico que considera a existência de uma causa necessária – uma primeira causa – da qual as restantes são contingentes – os efeitos existem, mas poderiam não existir. Existem alguns problemas relativamente aos argumentos cosmológicos, quando analisados em toda a sua radicalidade: nomeadamente, ao postularmos uma primeira causa não-causada, estaremos a incorrer numa possível incoerência. Da mesma forma, temos um problema de criação ex nihilo (a partir do nada), que parece ser bastante contra-intuitiva. Problemas a resolver no âmbito da filosofia e da ciência física, que não removem do nosso escrutínio o facto de a causação ocorrer no mundo natural, do qual os seres humanos fazem parte. O determinismo, desencantador como se apresenta à razão, é a base do modelo mecanicista do Universo, e é por isso que possuímos um Cosmos, não um Caos.
* escrito a duas mãos por Miguel Lopes e Flávio Santos
No Blasfémias: Maturidade e paz com o Establishment
Publicado Segunda-feira, Outubro 19, 2009 Política Deixar um a ComentárioTags: acriticismo, recortes de imprensa
Perdoem-me o inconformismo, mas é o paradigma. Não se atacam ideias, não se esgrimem argumentos, não se conceptualiza. Ataca-se cegamente, por onde se pode.
A ideia subjacente ao “argumento” de Helena Matos parece ser a ideia de que com o advento da maturidade, se vai fazendo a paz com – perdoem-me a expressão anglófona – o Establishment. Com a ordem ideológica, económica e legal vigentes. Este parece ser uma premissa que se baseia nas observações que a Helena faz da natureza dos homens. E que mesmo Francisco Louçã, tão homem como Sócrates (o filósofo, não o “homem de Estado”) terá de se submeter aos ditames das Moiras, as três irmãs que determinavam o destino. Talvez Helena F. Matos não conceba que, chegado às mais altas instâncias do poder, se a vontade geral assim o determinar, Louçã poderá dar início à mudança radical que permita o desmantelamento das estruturas que permitem desigualdades perversas na nossa comunidade.
E a necessidade dita que nada menos que mudança radical (abordar as raízes do problema) é solução para os males correntes.
Direito Natural, Vontade Popular e Poder*
Publicado Sábado, Outubro 17, 2009 Política 1 CommentTags: blogosfera, direito natural, Filosofia, filosofia política
No blasfémias, correio da manhã da blogosfera nacional, João Miranda fez juntar a sua voz à causa real. Uma incursão à caixa de comentários foi quanto bastou para decidirmos desenterrar e expor os tesourinhos que lá se escondiam. Para mais tarde recordar:
“Idealmente, uma sociedade livre é uma sociedade em que as relações são reguladas pelo direito natural e não pela vontade popular.”
João Miranda propõe a primazia do Direito Natural sobre a Vontade Popular (ou, em terminologia rosseauniana, Vontade Geral). O comentário faz pouco sentido, ou assenta sobre pressupostos metafísicos estranhos, quiçá reminiscências de um qualquer platonismo.
Entendemos por ‘Direito Natural’ certos princípios que têm a sua génese na própria condição humana. Aristóteles, o pai do Direito Natural, propôs que as leis variam de uma pólis para a outra, mas que as leis inerentes à natureza humana aplicam-se em todo o lado.
A faculdade da Razão é uma das características que definem o ser humano, e aquela que permite a apreensão do Direito Natural, e a construção de um Direito Positivo que nele mergulha as suas raízes. Sendo que a Razão é uma faculdade que decorre da própria natureza humana, e não apanágio exclusivo de Reis e outros déspotas esclarecidos, a isocracia (o direito a governar e a ser governado) faz todo o sentido. Rejeitá-la implica a própria rejeição do Direito Natural, elevando acima de todos os cidadãos essoutro, cujo estatuto é, afinal, tão pouco natural.
Justificar a legitimidade de um déspota ou um qualquer cidadão de estatuto especial nunca foi tarefa fácil. Recorreu-se, através da História, a várias justificações. Uma das características comuns a todas essas justificações é a existência de uma dimensão distinta, transcendental, de onde emanam os princípios morais, a Verdade, contemplável. O Objectivismo Moral permite que se reconheçam ideias como Bem ou Justiça. Mas são formulações éticas cuja metafísica que carece de explicação mais elaborada. Pura e simplesmente, isto não é Direito Natural. É Realismo Platónico, e é a ideia que se encontra na base dos Reis Filósofos.
Quanto à Vontade Geral por oposição ao Direito Natural: é uma comparação infrutífera. De qualquer forma, uma Vontade Geral que se baseie na igualdade e na educação estruturante será tão eficaz como a vontade de qualquer Rei Filósofo, sendo que a sua legitimidade é inabalável. A educação para a cidadania potencia a Razão, que permite apreender o Direito Natural.
“Um tirano benevolente é preferíel a uma má democracia? É. A democracia não é, necessariamente, o regime que maximiza a liberdade ou o bem estar. O importante não é se um regime é democrático ou não. O importante é se um regime limita do poder, reduz a importância da política e liberta os cidadãos.”
É fantasioso pensar que ou o Rei, ou o Direito Natural – já nem sabemos bem qual -, elimina o poder ao invés de substituir a sua fonte de legitimação. João Miranda quer testar a inteligência dos leitores fazendo-os acreditar que ao substituir Presidente por Rei, se esvazia o poder do segundo e entramos em autogestão.
“A discussão sobre a monarquia é uma discussão filosófica sobre o Estado sem poder.”
O Estado sem poder é um oxímoro.
Se os outros não têm poder sobre mim, o meu espaço de liberdade, em que as relações se baseiam na cooperação, e não no poder, aumenta.”
A fórmula está incompleta e cuidadosamente centrada no umbigo de quem a escreve. Não basta que os outros não tenham poder sobre mim, eu também não posso ter poder sobre os outros.
O meu poder de decisão é maior se as relações se basearem na cooperação em vez de se basearem no poder. Numa democracia eu sou uma minoria de 1. Se as relações se baseiam no poder, o poder de decisão é da maioria. Sendo assim, tenho mais liberdade se as relações de poder forem abolidas.
Torna-se complicado replicar um arrazoado que reduz ‘poder’ a ‘Estado’, ignorando todas as formas coactoras e descentralizadas como a propriedade e as relações informais de poder. É só por isto que os liberais não gostam da democracia, querem blindar esta segunda forma de poder aos intentos da primeira. Resguardar o poder sobre a maioria, da própria maioria.
Assim, a maximização da liberdade de uma minoria, seria conseguida à custa da minimização da liberdade da maioria. Retirar o poder à maioria mantendo os mecanismos de exploração e de coacção, é apenas confirmar o poder de uma minoria. É exactamente para isso que serve o curioso “Estado sem poder”: descentralizar o poder e afastar das massas a possibilidade de o eliminar.
Outra coisa seria o desejo de acabar com todas as fontes de poder, propriedade incluída, e esse transformaria o João Miranda num comunista libertário.
* escrito a duas mãos por Miguel Lopes e Flávio Santos
No V for Vendetta, afirma-se que não são as pessoas que devem temer os seus governos, mas sim os governos que devem temer o seu povo. A minha opinião é mais radical: as pessoas devem ser o governo. A democracia participativa é a base da autonomia política. Miguel Serras Pereira expõe a ideia da Cidadania Governante de forma mais elaborada.
O Decreto da Plebe manda fazer que…
Publicado Domingo, Outubro 11, 2009 Política Deixar um a ComentárioTags: acriticismo, diatribe, marxismo, Política
Apesar de ainda não terem sido apuradas todas as freguesias, vislumbra-se o vencedor de mais um plebiscito. O Decreto da Plebe mandatou novamente os instrumentos da sua exploração. Neste contexto, urge recuperar algumas ideias de Karl Marx e Vladimir Lenine sobre os instrumentos da revolução. Marx considerava que os trabalhadores chegariam ao entendimento dos fundamentos da sua situação por si mesmos, altura em que procederiam à mudança revolucionária. Lenine conceptualizou uma vanguarda que tirasse o proletariado do seu sono profundo e das pequenas revoltas, pouco mais que concessões das instituições capitalistas, encaminhando-o em direcção à revolução. Não subscrevo inteiramente as ideias de ambos os pensadores, mas sei que urge formar uma vanguarda, que combata o acriticismo profundo em que vivemos.
Quando se encontrava preso, aguardando a sua execução, Boécio escreve De Consolatione Philosophiae (Do Consolo Pela Filosofia). Proponho-me um suave diatribe, que versa sobre o oposto. Através da análise rigorosa da realidade, tudo o que consigo constatar é que o ser humano não é livre, em nenhuma dimensão da sua existência. Presos pelas grilhetas do destino à realidade física que está na nossa génese, presos pelos determinismos económicos e pela escravidão do salariato. A ilusão é de liberdade, de controlo. Na sua Ética Para Um Jovem, o filósofo Fernando Savater traça uma distinção entre as térmitas, condicionadas por uma realidade biológica particularmente restrita, e Heitor. A única coisa que muda é a variedade de acções que são logicamente possíveis. No fundo, o heroísmo de Heitor – que sabe que perderá a vida na contenda com Aquiles, não é mais que o fruto de tudo o que determina esse evento fatal.
São as últimas consequências que são impostas a quem ousa filosofar.
As incongruências e a lógica da força
Publicado Sexta-feira, Outubro 9, 2009 Internacional Deixar um a ComentárioEste tipo de acção policial e judicial configura a incongruência do regime norte-americano, cuja lógica da força é a fonte de legitimidade do Estado. Os direitos civis são uma ilusão, quando a instituição que detém o monopólio da violência legítima decide suspendê-los, ou reinstaurá-los, arbitrariamente.
Antipolítica no Imaginário Colectivo Português
Publicado Quarta-feira, Outubro 7, 2009 Política , Uncategorized Deixar um a ComentárioTags: antipolítica, recortes de imprensa
José Gil, filósofo português, no JN:
Os melhores conselhos possíveis para um país onde a Antipolítica é lei popular. O político, a sua categoria, é julgada sumariamente no banco dos réus do imaginário popular. Há a concepção de que todos os políticos “querem é poleiro”.
Falta mencionar a responsabilidade que os cidadãos têm de zelar pela sua comunidade política. Fiscalizar activamente o processo político. Em Portugal, o Estado é Pai, é protector, e é alvo de revoltas púberes. Reminiscescências do Estado Novo, e quiçá, implantadas na memória cultural de um Estado-Nação em que o poder político de um Rei absoluto foi implantado desde muito cedo. Bem antes de alguém ter, alegadamente, proferido “L’État, c’est moi”.