A arte expirante da Argumentação

Nos dias que correm, é relativamente fácil depararmo-nos com o paradoxo que diz respeito ao acto de argumentar. No decurso do último século, argumentar ou discutir tomou uma conotação sobretudo negativa, província de indivíduos pedantes que invadem o território sacrosanto e indisputável da opinião individual. Existe a percepção que todas as opiniões são igualmente válidas e/ou intocáveis.

Estabeleceu-se a tendência de interagir unicamente com aqueles com quem partilhamos préviamente as nossas opiniões e preconceitos. As diferenças de opinião são consideradas como inaproximáveis e inconciliáveis de todo. O caso contra a argumentação solidifica-se com a opinião popular de que a persuasão por meio de argumento é uma barreira ao exercício do livre arbítrio, um processo que impõe uma força (ainda que de carácter intelectual) superior a uma força inferior.

O que é argumentar? Argumentar é o processo através do qual fornecemos razões em suporte de uma conclusão. É o processo subjacente a questões de importância tão grande como o estatuto legal do feto, no contexto da controvérsia da IVG como na escolha de um modelo de computador em detrimento de outro. O acto de argumentar é ubíquo, inexorável e uma manifestação natural da nossa condição humana. O paradoxo torna-se evidente aqui – a visão do argumento como fonte de discórdia, amargura e processo inerentemente destrutivo face à necessidade de argumentar, como condição necessária à vida em sociedade.

O meu argumento centra-se na perniciosidade das condições que sobrecitei, para as quais argumentar é o antídoto:

  1. Numa sociedade aberta e democrática, é necessário analisar e fundamentar propostas. A capacidade de definir e fundamentar (fornecer razões) o melhor curso de acção é fundamental à sobrevivência das comunidades.
  2. Nem todas as ideias possuem o mesmo valor. Os seres humanos não são agentes inerrantes, e é benéfico submeter as nossas ideias ao escrutínio crítico. Algumas ideias erradas, quando mantidas por várias pessoas e/ou pessoas influentes poderão ter repercussões sérias sobre toda a sociedade.

Por outro lado, a afirmação que argumentar é interferir com o livre arbítrio dos outros é arremeter contra um espantalho. Argumentar não implica coacção, implica antes influenciar através da validade e solidez das razões apresentadas, procurando a livre aceitação destas.

Analisar as nossas crenças e proposições faz parte de um processo crítico que tem vindo a desenvolver-se desde há 2500 anos, que está na génese do “milagre” grego. A alternativa é a submissão à tradição, autoridade e arbitrariedade de quem faz asserções infundadas.

Conclui-se que argumentar – ou seja, fornecer razões para as nossas afirmações – é um acto estruturante, tanto pessoal como socialmente, e que deve ser praticado. As alternativas são a aceitação com base na autoridade, a força ou na arbitrariedade.

Resumo:

A. As concepções populares relativas à argumentação apresentam-na como um processo pouco agradável, domínio de pedantes, e que é dispensável

1. Porque todas as opiniões são igualmente válidas e/ou intocáveis. Tudo é relativo.

B. Argumentar é providenciar razões em suporte de conclusões.

1. Razões são justificações para certas afirmações

1.2. A alternativa ao fornecimento de razões é a aceitação de afirmações com base na autoridade, força ou arbitrariedade.

2. O acto de argumentar é pervasivo e inerente à condição humana.

C. A arte de argumentar encontra-se ameaçada

1. Cada vez mais as pessoas interagem apenas com pessoas que partilham da sua opinião e preconceitos

2. As diferenças de opinião são consideradas inaproximáveis

3. A falta de vontade em argumentar leva a consequências perniciosas, uma vez que argumentar é um factor de convergência social.

D. As consequências éticas de argumentar

1. Argumentar é aplicar força intelectual (superior) sobre uma força inferior.

1.1 No entanto, não existe coacção. Quem argumenta, procura a livre aceitação da audiência.

1.2 Tal como afirmado em C3, a influência com base no argumento origina as condições que possibilitam a vida em comunidade e sociedade.

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