Archive for the 'Educação' Category

Dissecação do “voto útil” e suas consequências

A qualidade das democracias é altamente volátil. Correlaciona-se causalmente com a índole do pensamento crítico e sofisticação política e lógica.

Vivemos numa democracia representativa de cariz eleitoral, conquista burguesa do século XIX e válvula de segurança de uma classe que perpetua a ilusão da igualdade formal sem atender à democracia económica que fomenta a justiça do caso particular. Deste modo as vitórias são ainda mais difíceis de alcançar. O sistema está configurado de modo a perpetuar uma oligarquia partidocrática (normalmente bi ou tripartidária) que capitaliza através da utilização de dispositivos retóricos sofisticados que tomam a mente do eleitor incauto de assalto.

De acordo com Políbio, a oclocracia é uma versão patogénica da democracia — quando esta se deixa tomar pelo império da paixão sobre a razão, pelo discurso inflamado e ardiloso do demagogo. A democracia representativa é terreno fértil para a oclocracia, uma vez que a representação promove a alienação efectiva dos cidadãos face à praxis política. Ainda assim, uma cidadania informada e activa pode minorar os problemas inerentes da democracia representativa através do exercício das suas faculdades crítica.

E é apenas na oclocracia, essa vil degeneração da democracia, que as seguintes formas lógicas podem imperar. De forma breve, consiste a falácia do ‘voto útil’ na composição de trẽs formas lógicas falaciosas:

1. Falsa dicotomia ou tricotomia
2. Argumentação circular
3. Apelo ao medo

Consiste o primeiro ponto em afirmar que existem apenas duas escolhas viáveis: PS ou PSD.

Esta asserção funda-se numa argumentação circular, que nos conduz ao segundo ponto:

1. Apenas o PS ou o PSD possuem hipóteses de vencer a eleição
2. O facto que tal é o caso desde 1976 é prova disso.
3. Logo, devemos votar PS ou PSD.

A terceira componente visa polarizar o voto através de um apelo ao medo.

1. Ou votamos no centro ou caímos no extremismo.
2. Cair no extremismo é assustador.
3. Logo, devemos votar no centro.

Demonstrada a perversidade lógica que transforma a democracia na sua vertente degenerada,  devemos lutar conscientemente por uma democracia que seja informada pelos valores da virtude cívica, sendo o criticismo a virtude regente. Ler aqui o relato de alguém que reflectiu criticamente antes de votar.

Agora que o XIX Governo Constitucional foi oclocraticamente eleito, o que devemos fazer em nome da democracia?

Considerações sobre massificação da comunicação

Com o advento do século XX, e na transição para o século XXI, aprendemos a rodear-nos dos mais variados meios de comunicação que possibilitam o nosso contacto constante com a informação. A invenção e larga disponibilização de meios de comunicação como o rádio e a televisão possibilitaram a massificação da informação, e a versatilidade no seu consumo: a possibilidade de absover informação enquanto se conduz ou se come o pequeno-almoço. Vivemos, certamente, num nevoeiro de informação.

Tudo isto parece notável, e certamente louvável. Mas poderá este nevoeiro de informação aumentar o nosso entendimento sobre o mundo que nos rodeia? Dificilmente. O relato dos factos não explica os fundamentos causais: o nevoeiro de informação deve ser colocado em perspectiva. Se ocorre um atentado suicida na Faixa de Gaza, importa saber como e quando o evento se deu, assim como todos os dados factuais. Mas, tão importante como o facto, é entender as motivações, profundamente enraízadas no estudo da Ciência Social, na Filosofia e na Teologia.

Um dos grandes problemas na comunicação social tradicional é o empacotamento de ideias para consumo rápido. Os meios de comunicação retiram o essencial de cada ideia, empacotam-na e revestem-na com uma camada retórica que a torna acessível e facilmente integrável na rede epistemológica do consumidor. Ou seja, dispensam o consumidor da sua responsabilidade de pensar criticamente sobre a ideia, antes de a integrar. É como gravar um DVD, e recorrer à leitura do dito DVD sempre que necessário.

A leitura, e sobretudo, a leitura de obras essenciais à estruturação da cultura ocidental, é um dos meios que levam à expansão do entendimento, e que tornam possível a perspectivação de factos em estado puro. A leitura coloca-nos em contacto directo com o pensamento do autor, com as suas considerações sobre uma parte da realidade, permitindo-nos construir uma interpretação crítica dos seus argumentos, ao invés de espantalhos.

Da qualidade das democracias

Os males da ignorância popular correlacionam-se causalmente com a má qualidade da democracia que é vigente em quase todas as comunidades políticas  de carácter nacional.

  1. A qualidade da democracia é determinada pela qualidade da participação.
  2. A qualidade da participação é, actualmente, insatisfatória.
  3. Logo, a qualidade da democracia actual é insatisfatória.

A primeira premissa está fundamentada na neutralidade da democracia enquanto processo de decisão política.  A democracia, per se, é uma ferramenta, que se presta aos critérios da sua utilização. A má utilização da ferramenta não é argumento plausível para que a vilipendiemos, mas para que aprendamos a utilizá-la melhor.

Parece-nos a nós que, actualmente, a maioria da população não exerce qualquer tipo de poder real. É, de facto, a justificação para a segunda premissa. As vontades do corpo eleitoral são influenciadas acriticamente através da retórica insubstanciada dos partidos políticos e dos outros agentes da arena política. As massas, pouco dotadas de análise crítica, aceitam as proposições que mais se adequam aos seus preconceitos, por oposição àquilo que é mais sensato.

Esta crítica é especialmente cáustica face à Democracia Representativa. Os cidadãos delegam as suas responsabilidades a terceiros, baseando-se no pressuposto que os tais representantes agem na defesa dos seus melhores interesses. Cremos que este tipo de Democracia é mais susceptível às vicissitudes do acriticismo popular, pois é facilmente conducente à apatia: “vota, e deixa-os governar”. A apatia face ao processo político, quando em conjunto com a falta de educação nas matérias políticas e cívicas é perniciosa, e retira qualquer poder real que os cidadãos possuam.

Identificámos, deste modo, os três factores determinantes da segunda premissa: a falta de esclarecimento, a falta de pensamento crítico e a apatia. Se o povo é pouco esclarecido, acrítico e apático, segue-se que a democracia será igualmente má, pouco mais que uma tirania autocrática.

A chave para resolver todos estes males encontra-se numa educação realmente estruturante, que forneça ao cidadão o conhecimento e as faculdades críticas que lhe permitam tomar as melhores decisões. O Homem educado não é presa fácil para o discurso florido ou emocionalmente carregado. É um Homem capaz de reconhecer as suas necessidades, assim como as da Pólis, e formular as melhores proposições no sentido de as satisfazer, de forma harmoniosa. É o Homem que influencia e é influenciado através de argumentos, ao invés de meras asserções.

Se bem que o aumento da educação não é condição suficiente para o aumento da qualidade da democracia, achamos que vale a pena tentar incutir certas virtudes cívicas e cultivar o conhecimento sobre as questões humanas: apesar de não serem suficientes por si só, são um elemento chave. O indivíduo ignorante não tem qualquer hipótese de afectar, de forma realmente significante, o processo político.

Não voto. Porquê?

O pior analfabeto
é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala,
nem participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo da vida,
o preço do feijão, do peixe, da farinha,
do aluguel, do sapato e do remédio
dependem das decisões políticas.
O analfabeto político
é tão burro que se orgulha
e estufa o peito dizendo
que odeia a política.
Não sabe o imbecil que,
da sua ignorância política,
nasce a prostituta, o menor abandonado,
e o pior de todos os bandidos,
que é o político vigarista,
pilantra, corrupto e lacaio
das empresas nacionais e multinacionais.

O Analfabeto político, Bertold Brecht (1898-1956)

Numa Democracia Representativa, da qual a nossa democracia é exemplo, o processo de votação é a expressão da preferência do eleitorado relativamente a um representante e ao seu programa político. O voto é, supostamente, um dever cívico – escolher em consciência os governantes que apresentam as melhores propostas relativamente ás várias esferas sociais e individuais.

Destarte, existem indivíduos que ou não subscrevem nenhuma das propostas apresentadas, ou não subscrevem os valores e métodos através dos quais os processos de decisão tramitam. Afiguram-se várias soluções para ambas as situações:

A primeira é a abstenção: a abstenção é a arma daqueles que discordam do corrente sistema político, na íntegra. Que usam a oportunidade para mansa desobediência civil, para contestar o contrato social vigente na sociedade. Infelizmente, é também maioritariamente apanágio de preguiçosos e ignorantes políticos que Brecht tao bem retrata, que trocam os seus deveres políticos pelo direito a serem governados à semelhança de gado.

A segunda é o voto em branco: o voto em branco implica aceitação do sistema político vigente, mas descontentamento com a oferta política disponível. A sua interpretação é menos lata, passa uma mensagem mais específica.

Não votarei. Mas não o farei por alienação política. Não votarei porque não concordo com o sistema vigente, com os seus métodos, nem com as consequências visíveis da sua aplicação. Votarei no dia em que cada voto for efeito de reflexão consciente sobre o indivíduo face à sociedade, ou seja, no dia em que existir educação política e envolvimento activo dos cidadãos nos processos de tomada de decisão. No dia em que cada voto tenha o mesmo peso (que já tem) e o mesmo significado: significado conferido pela capacidade de distinguir entre várias propostas políticas, que se fundamenta numa educação política que prepara o cidadão para cumprir os seus deveres e usufruir dos seus direitos.

Enquanto tivermos cidadãos alienados e ignorantes a votar, as escolhas serão sempre catastróficas. Esta conclusão dá origem a duas possíveis soluções.

A primeira à guisa da Analogia das Profissões formulada por Platão na sua República:

Imagina, pois, que acontece uma coisa deste género, ou em vários navios ou num só: o capitão, superior em tamanho e em força a todos os que se encontram na embarcação, mas um tanto surdo e com a vista a condizer, e conhecimentos náuticos da mesma extensão; os marinheiros em luta uns contra os outros, por causa do leme, entendendo cada um deles que deve ser o piloto, sem ter jamais aprendido a arte de navegar nem poder indicar o nome do mestre nem a data do seu aprendizado, e ainda por cima asseverando que não é arte que se aprenda, e estando prontos a reduzir a bocados quem declarar sequer que se pode aprender; estão sempre a assediar o capitão, a pedir-lhe o leme e a fazer tudo para que este lhes seja entregue; algumas vezes, se não são eles que o convencem, mas sim outros, matam-nos, a esses, ou atiram-nos pela borda fora; reduzem à impotência o honesto capitão com drogas, a embriaguez ou qualquer outro meio; tomam conta do navio, apoderam-se da sua carga, bebem e regalam-se a comer, navegando como é natural que o faça gente dessa espécie; ainda por cima, elogiam e chamam marinheiros, pilotos e peritos na arte de navegar a quem tiver a habilidade de os ajudar a obter o comando, persuadindo ou forçando o capitão; a quem assim não fizer, apodam-no de inútil, e nem sequer percebem que o verdadeiro piloto precisa de se preocupar com o ano, as estações, o céu, os astros, os ventos e tudo o que diz respeito à sua arte, se quer de facto ser comandante do navio, a fim de o governar, quer alguns o queiram quer não — pois julgam que não é possível aprender essa arte e estudo, e ao mesmo tempo a de comandar uma nau. Quando se originam tais acontecimentos nos navios, não te parece que o verdadeiro piloto será apodado de palrador, lunático e inútil pelos navegantes de embarcações assim aparelhadas?

Platão, A República, pp. 275-6

Que eu rejeito. Creio, por oposição, que se cada cidadão possuir a cultura política necessária, poderá exercer a sua cidadania plenamente e escolher as melhores propostas, governos e sistemas políticos que melhor se adaptem ás circunstâncias e condições únicas inerentes a cada comunidade política.

Da Sociedade Rápida

A sociedade do imediato caracteriza-se pela impaciência na obtenção de conteúdos, de informação, de entretenimento. De coisas tão simples como música, e de necessidades tão essenciais como a comida (não é por acaso que existem cadeias dedicadas ao fenómeno do fast food). Vive-se depressa, a mil à hora. Compete-se, como já referido previamente, pela nossa atenção. É uma sociedade de cores fulgurantes, de sons exóticos e estridentes. Mais que tudo, vivemos numa sociedade em que o conhecimento possui um fim muito específico, e que como tudo o resto, é consumido de forma regurgitada e rápida.

Diz-se por aí que vivemos na sociedade da informação, que vivemos na sociedade do conhecimento. Sem dúvida que a disponibilidade da informação no nosso mundo é ubíqua. Mas o que fazer desta informação? Como processá-la de modo a separarmos o trigo do joio, de modo a integrarmos apenas aquilo que nos interessa e que achamos ser o mais relevante para uma interpretação apurada da realidade?

A solução reside na obtenção de um enquadramento de ideias, quais ferramentas intelectuais, que permita uma análise crítica de qualquer proposição com o fim de determinar o seu valor veritativo. O busílis da questão apresenta-se sobre a forma da escolha do método que devemos utilizar para adquirir essas ferramentas. Talvez o possamos encontrar na televisão ou na imprensa popular? Na palavra do professor universitário, com base na suposta autoridade com que foi investido?

Na minha opinião, ao procurarmos combater a sociedade da informação rápida, que é consumida de forma análoga a um hambúrguer empacotado, não devemos utilizar métodos rápidos e demasiadamente simplificados. Os manuais universitários são louváveis, na medida em que procuram simplificar e explicar as ideias de tal ou tal filósofo. Como sabemos os filósofos são, frequentemente, terríveis escritores. As suas ideias encontram-se ocultas num emaranhado literário em que é difícil extrair a ideia que anima o texto (facto que já valeu a vários filósofos a acusação de obscurantismo). Mas a dificuldade inerente à leitura dos clássicos não significa que devamos abandoná-los em favor da regurgitação de ideias em fontes secundárias. Devemos antes dedicar-nos a uma leitura paciente e metódica, de modo a podermos emitir a nossa própria sentença sobre o texto que assim se apresenta, para que possamos decidir o que poderemos integrar na nossa perspectiva do mundo e o que devemos rejeitar.

As dificuldades impostas pela leitura directa das obras que constituem o suposto cânone da filosofia ocidental, e o hábito de lidar directamente com as ideias leva ao reconhecimento de tendências e padrões nos argumentos que nos são apresentados, assim como a uma visão do mundo abrangente e à capacidade de aplicar ideias a situações que as requeiram. Ou seja, desenvolvem uma agilidade mental que irá beneficiar o modo como conduzimos as nossas vidas.

Um dos grandes obstáculos que se coloca à aquisição de tais faculdades toma a forma da própria filosofia de educação vigente na maioria dos Estados, que se foca quase exclusivamente na educação utilitária, com fim à mera especialização. Visa criar um mundo de técnicos que poderão saber tudo sobre o ciclo de vida das estrelas, mas que não saberão como lidar com os problemas que se colocam no decorrer das interacções entre seres humanos. Vide O Declínio da Educação Liberal, in Contraforte.


Súbditos não! Somos Cidadãos!

Monismos

Categorias do Ser

Micro-solipsismos