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A Ilusão do Mérito

Mérito vem do latim meritum, merces (recompensa) e pretende identificar o que é atribuível apenas à própria pessoa por uma acção valorizada pela regra social. Não é o valor moral da acção, tenta compreender apenas o que pode ser imputável e usado na proporção comparativa entre os homens. Como a recompensa implica a existência de dois agentes, o que recebe a recompensa e o que a dá, está no discernimento de quem dá a construção desse escalonamento.

O problema é que em linguagem coloquial o termo pretende, mais do que criar a “desigualdade justa”, explicar a justeza da desigualdade. Dá a entender que sabe aquilo que nós temos que interiorizar: um mínimo denominador comum a todas as pessoas que lhes permite afirmar que a Maria acumula 50 pontos de mérito, melhor que o Jorge que pontua apenas 30 e que o Manel que morrerá à fome de demérito.

O escalonador desligará todos os interruptores da desigualdade alegadamente arbitrária, esperando despistar tudo o que não é meritório para encontrar a justa proporção do que dependeu apenas do indivíduo. Não será isto uma miragem?

Se já é complicado sequer sonhar com a possibilidade de inventar uma fórmula que permita calcular quanto é que cada um acrescentou ao produto social, como é que poderíamos inventar outra fórmula que calculasse, desse valor criado, apenas aquele que dependeu da própria pessoa? Inverificável e inexequível.

Nem mérito, nem livre-arbítrio

Numa visão materialista, o ser humano é definido pela sua natureza e pelo seu ambiente. É consequência de tudo antes de ser causa de coisa alguma. Vive perdido na corrente causal, de acordo com as circunstâncias e as grilhetas do destino. Os campeões da “igualdade de oportunidades” mistificam que ele deve apenas aos aspectos de partida os determinantes da sua condição. Nós não escolhemos a classe social, o país, a cidade onde nascemos, não escolhemos a família que temos e o património genético que herdamos. Não continuar a descrição, por medo das conclusões lógicas que somos forçados a inferir, é o que sustenta o discurso das “desigualdades meritórias”.

Bases Metafísicas: Princípios Primeiros

Pressupondo a existência de leis naturais, que regulam a realidade, encontramos nelas o fundamento para a inexistência de livre-arbítrio, pelo menos no que concerne ao macrocosmos.

No que concerne à escolha humana, e à possível ilusão de que o homem se encontra acima da Natureza, não passa disso – uma ilusão não fundamentada. Os processos neurobiológicos subjacentes à acção humana são, tal como tudo o resto, parte de um sistema que se encontra determinado desde o seu primeiro momento. Estas são as amarras impostas como parte subjacente da nossa natureza humana. A possibilidade de escolha entre o pudim flan e a mousse de chocolate no restaurante é, nestes termos, a mera ilusão da escolha.

Sistema Determinado e o Problema da Primeira Causa

Qual é o princípio primeiro da realidade? Esta é uma tarefa que tem a sua génese nas considerações filosóficas dos pensadores gregos, e que foi legada, em parte, à ciência. A teoria cosmológica correntemente mais aceite é a possibilidade do Big Bang, uma forma de Argumento Cosmológico que considera a existência de uma causa necessária – uma primeira causa – da qual as restantes são contingentes – os efeitos existem, mas poderiam não existir. Existem alguns problemas relativamente aos argumentos cosmológicos, quando analisados em toda a sua radicalidade: nomeadamente, ao postularmos uma primeira causa não-causada, estaremos a incorrer numa possível incoerência. Da mesma forma, temos um problema de criação ex nihilo (a partir do nada), que parece ser bastante contra-intuitiva. Problemas a resolver no âmbito da filosofia e da ciência física, que não removem do nosso escrutínio o facto de a causação ocorrer no mundo natural, do qual os seres humanos fazem parte. O determinismo, desencantador como se apresenta à razão, é a base do modelo mecanicista do Universo, e é por isso que possuímos um Cosmos, não um Caos.

* escrito a duas mãos por Miguel Lopes e Flávio Santos

De Deus e deuses: “E se você estiver errado?”

Questão pertinente.

Dawkins não responde directamente à questão, escolhendo antes colocar a sua pertinência em causa, conferindo especial ênfase à génese cultural das crenças específicas em Deus. Não é mais plausível acreditar em Jeová que no Grande Juju da Montanha, afirma Dawkins.

O argumento subjacente a tudo isto parece formular-se deste modo:

1. A maioria das culturas possui uma concepção de Deus, que varia em vários graus das outras

1.1 Cada indivíduo recebe, regra geral, a concepção de Deus que domina nessa sociedade.

2. Todas as afirmações sobre a existência de Deus são igualmente plausíveis

4. Logo, não existe razão para preferir uma concepção específica em detrimento de todas as outras.

Da qualidade das democracias

Os males da ignorância popular correlacionam-se causalmente com a má qualidade da democracia que é vigente em quase todas as comunidades políticas  de carácter nacional.

  1. A qualidade da democracia é determinada pela qualidade da participação.
  2. A qualidade da participação é, actualmente, insatisfatória.
  3. Logo, a qualidade da democracia actual é insatisfatória.

A primeira premissa está fundamentada na neutralidade da democracia enquanto processo de decisão política.  A democracia, per se, é uma ferramenta, que se presta aos critérios da sua utilização. A má utilização da ferramenta não é argumento plausível para que a vilipendiemos, mas para que aprendamos a utilizá-la melhor.

Parece-nos a nós que, actualmente, a maioria da população não exerce qualquer tipo de poder real. É, de facto, a justificação para a segunda premissa. As vontades do corpo eleitoral são influenciadas acriticamente através da retórica insubstanciada dos partidos políticos e dos outros agentes da arena política. As massas, pouco dotadas de análise crítica, aceitam as proposições que mais se adequam aos seus preconceitos, por oposição àquilo que é mais sensato.

Esta crítica é especialmente cáustica face à Democracia Representativa. Os cidadãos delegam as suas responsabilidades a terceiros, baseando-se no pressuposto que os tais representantes agem na defesa dos seus melhores interesses. Cremos que este tipo de Democracia é mais susceptível às vicissitudes do acriticismo popular, pois é facilmente conducente à apatia: “vota, e deixa-os governar”. A apatia face ao processo político, quando em conjunto com a falta de educação nas matérias políticas e cívicas é perniciosa, e retira qualquer poder real que os cidadãos possuam.

Identificámos, deste modo, os três factores determinantes da segunda premissa: a falta de esclarecimento, a falta de pensamento crítico e a apatia. Se o povo é pouco esclarecido, acrítico e apático, segue-se que a democracia será igualmente má, pouco mais que uma tirania autocrática.

A chave para resolver todos estes males encontra-se numa educação realmente estruturante, que forneça ao cidadão o conhecimento e as faculdades críticas que lhe permitam tomar as melhores decisões. O Homem educado não é presa fácil para o discurso florido ou emocionalmente carregado. É um Homem capaz de reconhecer as suas necessidades, assim como as da Pólis, e formular as melhores proposições no sentido de as satisfazer, de forma harmoniosa. É o Homem que influencia e é influenciado através de argumentos, ao invés de meras asserções.

Se bem que o aumento da educação não é condição suficiente para o aumento da qualidade da democracia, achamos que vale a pena tentar incutir certas virtudes cívicas e cultivar o conhecimento sobre as questões humanas: apesar de não serem suficientes por si só, são um elemento chave. O indivíduo ignorante não tem qualquer hipótese de afectar, de forma realmente significante, o processo político.


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